Recorde de feminicídios expõe crise na proteção às mulheres no ABC

O assassinato de Mariane Lima Alves, 27 anos, morta pelo ex-companheiro dentro da casa dos pais, em Diadema, na última semana, reacende o alerta sobre a escalada da violência contra a mulher no Grande ABC. O crime ocorre em um momento em que a região atinge o maior número de feminicídios desde o início da série histórica, em 2015, quando o homicídio qualificado por razão de gênero passou a ser tipificado por lei.

Dados da Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo mostram que, em 2025, 16 mulheres foram vítimas de feminicídio nas sete cidades do ABC, número 100% superior ao de 2024, quando oito casos foram registrados. As ocorrências se concentraram em Santo André (7), Diadema (4), Mauá (3) e São Bernardo do Campo (2). No mesmo período, houve 36 tentativas de feminicídio. Até então, o ano com mais registros havia sido em 2023, com 13 mortes. A tendência acompanha o cenário estadual. São Paulo contabilizou 266 feminicídios em 2025, o maior número dos últimos dez anos.

Os indicadores de estupro também avançaram no ABC. Em 2025, foram 150 ocorrências, contra 142 no ano anterior, alta de 5,6%. Santo André apresentou o maior crescimento absoluto, de 28 para 41 casos. Rio Grande da Serra teve o maior aumento proporcional, de 4 para 7 registros. São Caetano e Ribeirão Pires registraram elevação de 33,3%. São Bernardo teve variação discreta, enquanto Diadema e Mauá apresentaram redução, embora os números permaneçam expressivos. Na análise mensal, os casos passaram de 12 em novembro para 13 em dezembro, alta de 8,3%.

A legislação considera feminicídio quando o assassinato ocorre no contexto de violência doméstica e familiar contra a mulher ou envolve menosprezo e discriminação à condição de mulher. Especialistas apontam que o rompimento de relacionamentos segue como um dos momentos de maior risco.

Para apoiar mulheres em situação de violência, o Centro de Referência e Apoio à Mulher II (CRAM II), serviço da Prefeitura de São Bernardo do Campo executado pelo Instituto Ficar de Bem, oferece assistência integral e atendimento humanizado. O serviço atua de forma articulada com a rede conforme a necessidade de cada caso.

O CRAM II atende mulheres que vivenciaram violências física, psicológica, moral, patrimonial e sexual, com acompanhamento psicológico e social. O atendimento é sigiloso e não exige agendamento prévio. Também são realizadas avaliação de risco e orientações individualizadas e, em situações de ameaça à vida, a mulher pode ser encaminhada para Casa Abrigo.

“Quando a mulher procura o CRAM, ela encontra uma rede preparada para acolher sem julgamento e orientar cada passo, desde a denúncia até o acesso às medidas protetivas. O atendimento humanizado faz diferença na decisão de romper o ciclo de violência”, afirma Sara Maria de Souza, Gerente de Projetos do Instituto Ficar de Bem.

Para Sara, os dados recentes reforçam a necessidade de medidas estruturais e permanentes. “A região precisa avançar na implantação de Delegacias da Mulher com atendimento 24 horas, ampliar a oferta de casas-abrigo e fortalecer patrulhas especializadas, além de integrar informações entre prefeituras, Ministério Público e forças de segurança. Também é fundamental garantir acompanhamento psicológico às vítimas e investir no monitoramento de agressores. Campanhas educativas contínuas nas escolas e unidades de saúde, capacitação de servidores para reconhecer sinais de violência doméstica e criação de centros de apoio jurídico gratuito ampliam a capacidade de prevenção. Cada feminicídio expõe fragilidades na rede de proteção e impõe uma resposta articulada, com responsabilidade compartilhada entre poder público e sociedade”.

Casos de violência podem ser denunciados pelos canais 180, 100 ou 190, além do registro em delegacias e promotorias de Justiça. Após, as vítimas podem ter acesso a medidas protetivas, assistência jurídica, acompanhamento psicológico e cuidados médicos, incluindo profilaxia para infecções sexualmente transmissíveis e, quando previsto em lei, interrupção da gravidez.

“O aumento dos registros no ABC indica que o enfrentamento à violência contra a mulher depende de estrutura, articulação institucional e acesso rápido à rede de proteção. Sem essas condições, os números deixam de ser estatística e se traduzem em perdas irreparáveis para famílias e comunidades inteiras”, concluiu Sara.

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Via Assessoria de Imprensa

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